Versa o discurso que as empresas estão loucas para criar novos produtos e assumir a vanguarda do mercado e dos lucros. Versa também que elas investem nos talentos da casa para alcançar objetivo tão essencial à evolução dos negócios e dos ganhos. Uma pesquisa da consultoria Fellipelli com 700 executivos sinaliza que a realidade não é tão eletrizante assim.
O estudo, divulgada pelo CanalRH, o portal de informação mantido pelo grupo VR, identificou que os executivos preferem cumprir ordens e executá-las da forma mais eficiente possível. Nada menos que 58% declararam dedicar tempo e esforço para promover e organizar tarefas. Apenas 9% investem energia na busca de novas idéias.
A consultoria avaliou que a falta de inovadores estaria relacionada a traços de caráter. Primeiro, pouca gente tem perfil arrojado para questionar e empreender. Segundo, a maioria se intimida com a ideia de fazer diferente. Imagina que criar é conceber algo grandioso e não percebe que há inovação em transformar pequenos vícios cotidianos do trabalho.
Será que é só por isso?
Talvez a definição de inovação adotada na pesquisa possa explicar melhor tamanha predileção pela introspecção criativa. O inovador “diverge, avalia possibilidades, apoia mudanças, desafia o ‘status quo’, conecta ideias com necessidades e necessidades com ideias”.
Falando francamente: são os chefiados que não estão prontos para falar ou os chefes que preferem não ouvir? Quantos realmente estão preparados para liderar e aproveitar o talento de pessoas que “divergem e desafiam o status quo”? E em que gavetas se guardam os egos? E onde fica o medo de perder a cadeira para o outro? Afinal, se a orientação é valorizar gente criativa como é que os meros executores são maioria e ainda estão lá, bem remunerados e firmes em seus postos?
Sem querer, a pesquisa denuncia uma faceta nebulosa da cultura corporativa brasileira – o culto ao puxa-saquismo. Dizer “sim senhor” ainda é muito mais seguro, confortável e valorizado do que levantar a mão no meio da reunião e contra-argumentar: “discordo e tenho uma sugestão para fazermos mais e melhor”. Talvez seja pelo traço cultural – e não pela deficiência financeira – que a falta de inovação seja um dos piores males das empresas brasileiras.
Por: Alexa Salomão, editora de Época Negócios. Escreva: asalomao@edglobo.com.br
